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NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA

Cadeira Nº 17
Jenny Seabra de Souza

Miguy Noronha

Elaine Consoli Karam


Zaira Maria Mota Cantarelli

Dionísia Gonçalves Pinto nasceu a 12 de dezembro de 1810, no sítio Floresta, Rio Grande do Norte, Hoje cidade Nísia Floresta. Maria Isabel do Sacramento foi sua meia irmã, do primeiro casamento da mãe, Antonia Clara Freire; Clara, companheira dos folguedos infantis, e Joaquim, seu primeiro discípulo. Literata prodigiosa, usou o estranho pseudônimo de Nísia Floresta Brasileira Augusta: Nísia, abreviatura do prenome paterno; Floresta, o sítio natal; Brasileira, afirmativa pessoal, à semelhança do pai, Dionísio Gonçalves Pinto, que anexou Lisboa para dar ciência de sua origem; Augusta, homenagem ao segundo marido. Reminiscências de sua obra reportam à infância feliz no sítio Floresta, de serenos lagos, velhos bosques e pomar de saborosos frutos, prosperidade debilitada à dedicação indígena, raça mais tarde imortalizada na obra Lágrimas de um Caeté (Floresta, 1989, 96-97 e 150). Induzida por interesses de família, Nísia casou aos 13 anos com Manoel Alexandre Seabra de Melo, vizinho de vastos domínios em Papari, de espírito tacanho, que não entendia os vôos intelectuais de sua estranha companheira. Breve, Nísia abandonou o marido e retornou para casa. Em Pernambuco conheceu Manoel Augusto Faria Rocha, estudante de idéias avançadas da Faculdade de Direito de Olinda. Fanatismo político levou ao assassinato paterno, em 1828. Quatro anos mais tarde, Manoel Augusto se bacharelava em Direito, e Nísia publicou em Pernambuco uma ousada tradução feminista, feito repetido em 1833, em Porto Alegre para onde veio morar em companhia do marido, da filhinha Lívia, de mãe e das duas irmãs. O caçula, estudante de Direito, permaneceu em Olinda. O cunhado Manoel Antonio Rocha Faria, juiz já radicado em Porto Alegre, facilitou o acesso à elite social e cultural. Na pacata capital provinciana de dez a doze mil almas, residiam um punhado de jornalistas, entre eles a proprietária de Belona, poetisa Maria Josefa Barreto Pinto, a poetisa cega Delfina Benigna da Cunha e, provavelmente na mesma rua Nova, atual Andrade Neves, a poetisa-cronista Ana Eurídice de Barandas, sua amiga e, como ela, casada com advogado, José Joaquim Pena Penalta. A tradução feminista de 1833 atingiu em cheio velhos preceitos patriarcais; o silêncio da imprensa, aqui como no nordeste, parece dizer do repúdio masculino à sua ousadia. A 12 de janeiro de 1833 nasceu augusto, que anexou Américo. Foi batizado a 4 de agosto, e no mesmo mês morria o marido de uma constipação. Nísia louvou sua memória pelo resto de seus dias. Para sustentar o casal de filhos, abriu uma escola de meninas. Exceção fez o menino José Antonio Corrêa da Câmara, que acompanhava a irmã Rita de Assis às aulas e legou valioso depoimento acerca da pedagogia nisiana. Utilizava ela versos de sua autoria, Máximas e Pensamentos, criados sobre o berço terno da filha primogênita, a quem os dedicou. Serviam para cópia ou ditado aos educandos, que assimilavam a um só tempo lições de ortografia e de moral: “Estuda por amor ao estudo/ E não creias jamais que sabes tudo.” (Câmara, 382). O cerco farroupilha à capital apontou para o exílio, entre 1836 e 1837. As intelectuais buscaram o Rio de Janeiro, onde Nísia abriu o Colégio Augusto, que dirigiu por 17 anos e que a sobreviveu até a década de 1890. Nísia viajou para a Europa em 1849, e entrou em contato com celebridades que acabaram por cativar seu espírito perquiridor. Residiu na França por 28 anos, viajou pela Alemanha, Itália e até a Grécia, escreveu em francês e teve livro adotado em sala de aula em Piemonte. Faleceu em Ruan, França, a 24 de maio de1885, aos 75 anos de idade. Em meio a lendas que cercam sua memória, por haver transgredido preceitos tradicionais, recebeu translado para sua terra natal, em 1956. Por toda uma vida devotada à causa de educação, Nísia Floresta é hoje nome de rua e patrona da cadeira nº 17 da Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul. E também nome de educandário nos municípios de Alvorada e Viamão. A obra literária nisiana mostra a versatilidade dessa grande intelectual precursora do feminismo no Brasil, educadora de mão cheia, abolicionista e republicana. Dentre seus livros destacamos: "Direitos das Mulheres e Injustiça dos Homens". Tradução livre da obra da feminista inglesa Wollstonecraft, foi editada em Pernambuco em 1832 e no ano seguinte em Porto Alegre. A 4ª edição, comentada por Constância Lima Duarte, é da Cortez de S. Paulo, 1989. Estruturada a partir de vivências pessoais marcantes, como o assassinato paterno, o fracasso matrimonial e o acesso às idéias inovadoras do iluminismo europeu, Nísia propôs-se combater a ignóbil situação de ignorância e inferioridade em que era mantida a mulher brasileira. Para isso prova a igualdade de inteligência entre os dois sexos e rejeita a tese de que o conhecimento depende do volume da caixa craniana. Demonstra que a mulher tem capacidade para administrar, para ocupar cargos públicos, para o ensino das ciências e até mesmo para exercer empregos militares. Faltam-lhe oportunidades. Reitera a absoluta necessidade de educação para a mulher, como forma de subtraí-la à submissão pela força bruta que lhe era imposta. "Conselhos à Minha Filha". É uma retomada das máximas pedagógicas que utilizou desde Porto Alegre e que, acrescidas, foram editadas em S.Paulo em 1842 e 1845. É a voz da mãe e da educadora, a indicar o lugar que de direito cabe à mulher educada, timoneira da sociedade oitocentista: “Armas há poderosas, que a mulher/ Deve empregar com ânimo bastante,/ São a doce bondade, a paciência,/ A modesta ternura, a fé constante.” (Câmara, 382). "Fany ou o Modelo das Donzelas". Conto de fundo moralista dirigido a suas educandas. Inédito até 1935, Fernando Osório inseriu-o em sua obra Mulheres Farroupilhas. Tem como pano de fundo espírito ordeiro e belas chácaras periféricas carregadas de abundância, que ela conheceu, e viu a Revolução Farroupilha no seu afã patriótico a tudo devorar, levando de roldão a tranqüilidade, e colocando à prova a capacidade feminina para enfrentar novos papéis, como Fany, a personagem da narrativa, que procura suprir a ausência o pai tombado na guerra. "Opúsculo Humanitário". Editado em São Paulo em 1853, tem reedição comentada por Peggy Sharpe-Valadares, pela Cortez de S. Paulo, em 1989. Conhecendo o Comte e seu positivismo, que eleva a mulher a rainha do lar, Nísia renega o feminismo extremado de direitos. Historia a posição da mulher através dos tempo, e relaciona sua felicidade ao espaço que ela ocupa na sociedade, maior nas comunidades adiantadas. Denuncia a insuficiência de escolas no Brasil e condena os professores despreparados, estrangeiros na maioria. Prega a educação da mulher como caminho para a regeneração da sociedade, através do correto desempenho do papel de boa esposa e mãe educadora dos filhos. Nísia foi uma mulher avançada para seu tempo. Feminista, defendeu a igualdade de direitos para os sois sexos e a necessidade de educação para a mulher como forma de liberá-la da opressão secular. Recuou sob a influência comtiana, circunscrevendo o mundo feminino às dimensões do lar. Abolicionista, via na escravidão um entrave à sua obra educacional; indigenista, defendia o estado de pureza do selvícola; republicana, como forma opcional de governo, poetisa e literata polêmica, publicou uma dúzia de obras, que somam dezenas se computarmos inéditos e reedições.

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