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ANA CÂNDIDA ALVIM 

Cadeira Nº 09
Aurora Nunes Wagner

Consuelo Andrade Belloni

Anna Luiza Thomaz

Maria Bernadete Saidelles Ferreira

“Cidadezinha faceira/ que se ergue sobranceira/ Entre colinas formosas/ Em negligente beleza/ De arvoredo orbiculado/ Semelha risonha fada/ Dos bosques subindo airosa/ Que banhada docemente/ Por alvas ondas de prata/ Gentilmente se retrata/ No majestoso Uruguai.” Ana Cândida Alvim nasceu em 1850 na cidade de Uruguaiana, tão poeticamente descrita por ela nos versos acima expostos. Neste chão da fronteira começou a história desta poetisa, educadora e jornalista. Filha de José Cândido Alvim e de Ana Prado Alvim. Seus pais proporcionaram-lhe uma infância eivada de afeto, canções e cirandas. Aprendeu a ler com sua mãe, senhora culta, cantora e exímia pianista. Jamais freqüentou escola e teve um professor de francês por seis meses apenas. Sua infância desenrolou-se em ambiente rico de calor humano e onde o assunto dominante era a já finda Revolução Farroupilha. As crianças tinham para ouvir e se empolgar os mais variados lances da luta já passada e os mais ricos e extraordinários casos. Estes casos lhe povoam o espírito de fantasia e ao mesmo tempo admiração pelos feitos de seus antepassados. Sendo Ana Cândida descendente de ilustre família rio-grandense e seu avô um dos fundadores da cidade de Uruguaiana, sua alma sensível ia lentamente absorvendo o que via e ouvia. E assim foi solidificando-se o idealismo que norteou sua vida. A profunda e indelével impressão causada pelas brilhantes narrativas da Epopéia Farroupilha inspirou-a a escrever o seguinte: “Do nobre avô materno, fervoroso/ Farroupilha que sempre tinha n’alma/ Enlevada escutava os episódios/ De luta decenal e celebrada/ Que tanto enalteceu a plaga amada/ E gravando se foi entre fulgores/ Na calma juvenil entusiasta/ A grandeza de idéia democrática/ Inspirada nos mais belos princípios/ Do direito que assiste a humanidade/ De ser livre, mas tendo sempre n’alma/ As normas do dever austero e nobre.” Autodidata, Ana Cândida tinha um caráter disciplinado e vontade férrea. Sem esmorecimento trilhou o caminho a que se propôs sempre inspirada no direito e na liberdade. Conseguiu ver coroados de êxito seus esforços, quando ao prestar exame na Escola Normal de Porto Alegre obteve as melhores notas. Retornou à sua terra natal diplomada e disposta a exercer o magistério público estadual. Assim o fez. Como professora destacou-se por seus elevados dotes intelectuais e o idealismo que a envolvia contagiou várias gerações de educandos, insuflando na alma destes o culto pelos nossos heróis e nossas tradições. Gostava de organizar festas cívicas em seu colégio e tomava parte ativamente em todas as demonstrações patrióticas. Destaca-se a Conferência Literária realizada na noite de 7 de setembro de 1908 no Teatro Carlos Gomes de Uruguaiana, cujo tema foi “Pátria”. “Pátria nome sublime e santo, guardado com doce carinho no sacrário d’alma, entre os nossos primeiros e indeléveis afetos. Pátria, palavra mágica e divina que faz-nos pulsar o coração, em dulcíssimas vibrações de entusiasmo e amor. Pátria é o berço amado dos nossos sentimentos mais belos e puros, das esperanças mais formosas, dos anelos dourados e santos; é o primeiro sonho, belo e divinal, que embalou-nos a alma no doce florir da existência. Pátria, é o monte, o lago, o rio, o campo virente onde brincamos na infância;é o templo adorado, entre todos o mais formoso e santo, em que escutávamos o doce e melancólico tanger da Ave Maria e onde íamos sorridentes, pela mão de nossos pais, ouvir sagrados salmos do levita do Senhor. Pátria é o torrão amado onde esvoaçaram, como um lindo bando de pombos alvinitentes, os dias felizes e descuidosos da infância; é a casa paterna, palácio ou choça sempre querida, embalsamada dos maternais carinhos, falando-nos a alma, trazendo-nos a veneranda imagem de nossos pais, e tendo nas paredes, no teto, em cada canto gravado todo esse passado formoso e ridente, tão cheio de encantos e
enlevos.” ... e continua neste ritmo a cantar a Pátria ao longo de vinte e oito páginas. Ana Cândida, em sua juventude, foi abatida pelo destino inexorável, que arrebatou-lhe seu amado noivo. Sublimou sua dor escrevendo poemas plenos de lirismo nostálgico e romântico. Esta pequena e frágil criatura teve como companheiro seu irmão José Cândido Alvim, também acometido por grandes provações e infortúnio. Quando estava com oitenta anos, este irmão faleceu e em meio à dura perda e em plena lucidez publicou um livro de poesias, Grinalda de Saudades, homenageando, pós-morte este estimado irmão. Em 9 de maio de 1934 com 84 anos de idade extingue-se a chama de talento desta poetisa admirável que dizia: “São poetas todos os que sabem verdadeiramente sentir e amar, porque a poesia nasce da luz e do amor.” Gladis Menezes

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